Investigação revelada pelo Fantástico envolve abertura de 15 empresas, saques milionários e inclui o presidente Julio Casares; Conselho vota impeachment nesta semana
Nelson Marques Ferreira ao lado do presidente Julio Casares — Foto: Marcos Ribolli
A Polícia Civil investiga Nelson Marques Ferreira, ex-diretor adjunto de futebol do São Paulo, por ter aberto 15 empresas enquanto ocupava cargo na diretoria do clube. Ele esteve na função desde o início de 2021 até novembro do ano passado. O caso veio a público em reportagem exibida neste domingo pelo Fantástico.
O inquérito busca esclarecer se existe relação entre a criação dessas empresas e possíveis desvios de recursos das contas do São Paulo Futebol Clube. A investigação teve início após uma denúncia enviada pelos Correios, que apontava a existência de um suposto esquema financeiro envolvendo dirigentes e empresas prestadoras de serviços. No mesmo procedimento, o presidente Julio Casares e membros de sua família também aparecem como investigados.
Denúncia levou à abertura do inquérito
Segundo a Polícia Civil, a apuração começou após o recebimento de informações que indicavam movimentações suspeitas e possíveis vínculos ocultos entre dirigentes e empresas comerciais.
– “Nós recebemos uma denúncia, por meio dos Correios, dando conta de que havia uma série de desvios estruturados e sistemáticos no âmbito do São Paulo Futebol Clube e que havia dirigentes envolvidos, juntamente com empresas prestadoras de serviços, empresas ligadas a agenciamento de jogadores e esses dirigentes, citados pelo denunciante, teriam criados ou constituídos franquias em shopping centers de maneira oculta, então eles seriam sócios ocultos de algumas franquias.”
– “E a partir daí, então, nós demos início a uma investigação preliminar e nessa investigação preliminar a gente conseguiu elementos indiciários, evidências consistentes, dando conta de que essa denúncia, juntamente com as evidências que haviam sido coletadas no caso Corinthians e VaiDeBet, parecia ter verossimilhança, parecia ter credibilidade, demos início a uma investigação formal via inquérito policial” – explicou Tiago Fernando Correia, delegado responsável pelo caso.
O delegado também detalhou como o nome de Nelson Marques Ferreira surgiu ao longo das investigações. O ex-dirigente foi nomeado por Julio Casares logo no início do atual mandato presidencial, em 2021.
– “No transcurso do inquérito policial, nós descobrimos que um dos dirigentes que havia sido citado pelo denunciante, de fato, em meados do ano de 2022, entre 2021, especialmente 2022 e 2023, havia criado cerca de 15 franquias, 15 pessoas jurídicas em shopping centers e isso também despertou em demasia nossa atenção e nós acabamos dando prosseguimento às investigações.”
Saques milionários chamaram atenção do COAF
Durante o avanço do inquérito, a Polícia Civil acionou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) para analisar movimentações financeiras ligadas ao clube.
– “Até que num dado momento, diante de todo esse quadro fático, nós acionamos o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o COAF, em relação ao próprio clube, que, aliás é uma vítima eventualmente. E, nesse acionamento, o resultado deu conta de que havia cerca de 35 saques de dinheiro em espécie na boca do caixa, que, de 2021 até 2025, totalizava 11 milhões de reais” – acrescentou o delegado.
De acordo com Tiago Fernando Correia, o São Paulo é tratado formalmente como vítima no processo, em situação semelhante à investigação envolvendo o Corinthians e o contrato com uma casa de apostas — ambos os casos sob responsabilidade do mesmo delegado.
– “Sacou e não se sabe o destino desse dinheiro, onde foi parar. Exatamente, esse é o ponto principal da investigação, tratando a instituição São Paulo Futebol Clube como vítima. A gente quer entender primeiro o motivo destes saques terem sido realizados dessa maneira, ou seja, a utilização de dinheiro em espécie, a utilização de dinheiro vivo.”
– “E em um segundo momento tentar entender o porquê que essa empresa de transporte de valores passou a realizar esses saques e para quem os funcionários dessa empresa entregavam os malotes com o dinheiro ao final, ou seja, qual a destinação dada a este dinheiro” – concluiu.
Defesa de Julio Casares se manifesta
Relatórios do COAF apontaram movimentações consideradas atípicas nas contas do presidente do São Paulo, Julio Casares. A análise abrangeu um período de 29 meses, entre janeiro de 2023 e maio de 2025.
Segundo a investigação, “a atipicidade deixa de ser pontual e revela-se estrutural”. Com salário mensal de R$ 27.505,32, Casares recebeu R$ 617.506,90 no período, enquanto sua conta bancária registrou movimentação total de R$ 3.197.499,41, uma média mensal de aproximadamente R$ 110 mil.
O advogado Bruno Borragini, responsável pela defesa do presidente, rebateu as conclusões do inquérito.
– “Não há anexo de causalidade, não há uma relação de vinculação nem direta nem indireta entre os saques do São Paulo e as entradas em espécie da conta do Júlio. Na iniciativa privada ele ganhava tanto em conta e também ao longo dessas funções que ele exerceu, ele recebeu boa parte em espécie. E ele guardou, quando ele assume a presidência do São Paulo, ele passa a suplementar a renda dele, como ele teve esse decréscimo, fazer esses depósitos em conta.”
– “O Júlio, enquanto presidente, ele não tinha nem poder, e por isso que o São Paulo tem até um departamento específico, que é o de conformidade, de poder olhar de cima para baixo e falar, aqui está errado, aqui está certo. O sentimento do Júlio hoje é de apuração. Ele não está fazendo o juízo de valor, ele determinou que o departamento de compliance assim agisse para que fosse e que seja apurada a conduta de determinados diretores. Então, assim, ele não se sente nem bem nem mal. Ele só determinou, enquanto presidente, a apuração” – afirmou.
Crise política e votação de impeachment
O cenário institucional do São Paulo se agravou nas últimas semanas. Em 23 de dezembro, conselheiros protocolaram um pedido com 57 assinaturas solicitando a convocação de uma reunião extraordinária para discutir o impeachment de Julio Casares.
A votação foi marcada para a próxima sexta-feira, às 18h30, no estádio do Morumbis. O requerimento partiu do grupo de oposição Salve o Tricolor Paulista, mas também contou com assinaturas de integrantes da situação.
A pressão sobre o presidente aumentou após reportagens revelarem a exploração irregular de um camarote do Morumbis, envolvendo dois diretores atualmente afastados. Em áudios divulgados, Mara Casares e Douglas Schwartzmann admitiram participação em um esquema de uso ilegal do espaço durante o show da cantora Shakira, em fevereiro de 2025.
Enquanto o caso ganhava repercussão pública, a Polícia Civil já mantinha investigações abertas em diferentes frentes, incluindo supostas irregularidades no departamento de futebol e a movimentação financeira das contas do clube e de Julio Casares.
Entre os pontos apurados estão o recebimento de R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro nas contas do presidente e os 35 saques realizados pelo São Paulo entre 2021 e 2025, que somam R$ 11 milhões.
Fonte – Jogo de Hoje 360°