Polícia apura ex-dirigente do São Paulo por criação de empresas durante gestão no clube

Escrito em 12/01/2026
Redação São Paulo - Jogo de Hoje

Investigação revelada pelo Fantástico envolve abertura de 15 empresas, saques milionários e inclui o presidente Julio Casares; Conselho vota impeachment nesta semana



Nelson Marques Ferreira ao lado do presidente Julio Casares — Foto: Marcos Ribolli


A Polícia Civil investiga Nelson Marques Ferreira, ex-diretor adjunto de futebol do São Paulo, por ter aberto 15 empresas enquanto ocupava cargo na diretoria do clube. Ele esteve na função desde o início de 2021 até novembro do ano passado. O caso veio a público em reportagem exibida neste domingo pelo Fantástico.

O inquérito busca esclarecer se existe relação entre a criação dessas empresas e possíveis desvios de recursos das contas do São Paulo Futebol Clube. A investigação teve início após uma denúncia enviada pelos Correios, que apontava a existência de um suposto esquema financeiro envolvendo dirigentes e empresas prestadoras de serviços. No mesmo procedimento, o presidente Julio Casares e membros de sua família também aparecem como investigados.

Denúncia levou à abertura do inquérito

Segundo a Polícia Civil, a apuração começou após o recebimento de informações que indicavam movimentações suspeitas e possíveis vínculos ocultos entre dirigentes e empresas comerciais.

“Nós recebemos uma denúncia, por meio dos Correios, dando conta de que havia uma série de desvios estruturados e sistemáticos no âmbito do São Paulo Futebol Clube e que havia dirigentes envolvidos, juntamente com empresas prestadoras de serviços, empresas ligadas a agenciamento de jogadores e esses dirigentes, citados pelo denunciante, teriam criados ou constituídos franquias em shopping centers de maneira oculta, então eles seriam sócios ocultos de algumas franquias.”

“E a partir daí, então, nós demos início a uma investigação preliminar e nessa investigação preliminar a gente conseguiu elementos indiciários, evidências consistentes, dando conta de que essa denúncia, juntamente com as evidências que haviam sido coletadas no caso Corinthians e VaiDeBet, parecia ter verossimilhança, parecia ter credibilidade, demos início a uma investigação formal via inquérito policial” – explicou Tiago Fernando Correia, delegado responsável pelo caso.

O delegado também detalhou como o nome de Nelson Marques Ferreira surgiu ao longo das investigações. O ex-dirigente foi nomeado por Julio Casares logo no início do atual mandato presidencial, em 2021.

“No transcurso do inquérito policial, nós descobrimos que um dos dirigentes que havia sido citado pelo denunciante, de fato, em meados do ano de 2022, entre 2021, especialmente 2022 e 2023, havia criado cerca de 15 franquias, 15 pessoas jurídicas em shopping centers e isso também despertou em demasia nossa atenção e nós acabamos dando prosseguimento às investigações.”

Saques milionários chamaram atenção do COAF

Durante o avanço do inquérito, a Polícia Civil acionou o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF) para analisar movimentações financeiras ligadas ao clube.

“Até que num dado momento, diante de todo esse quadro fático, nós acionamos o Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o COAF, em relação ao próprio clube, que, aliás é uma vítima eventualmente. E, nesse acionamento, o resultado deu conta de que havia cerca de 35 saques de dinheiro em espécie na boca do caixa, que, de 2021 até 2025, totalizava 11 milhões de reais”acrescentou o delegado.

De acordo com Tiago Fernando Correia, o São Paulo é tratado formalmente como vítima no processo, em situação semelhante à investigação envolvendo o Corinthians e o contrato com uma casa de apostas — ambos os casos sob responsabilidade do mesmo delegado.

“Sacou e não se sabe o destino desse dinheiro, onde foi parar. Exatamente, esse é o ponto principal da investigação, tratando a instituição São Paulo Futebol Clube como vítima. A gente quer entender primeiro o motivo destes saques terem sido realizados dessa maneira, ou seja, a utilização de dinheiro em espécie, a utilização de dinheiro vivo.”

“E em um segundo momento tentar entender o porquê que essa empresa de transporte de valores passou a realizar esses saques e para quem os funcionários dessa empresa entregavam os malotes com o dinheiro ao final, ou seja, qual a destinação dada a este dinheiro”concluiu.

Defesa de Julio Casares se manifesta

Relatórios do COAF apontaram movimentações consideradas atípicas nas contas do presidente do São Paulo, Julio Casares. A análise abrangeu um período de 29 meses, entre janeiro de 2023 e maio de 2025.

Segundo a investigação, “a atipicidade deixa de ser pontual e revela-se estrutural”. Com salário mensal de R$ 27.505,32, Casares recebeu R$ 617.506,90 no período, enquanto sua conta bancária registrou movimentação total de R$ 3.197.499,41, uma média mensal de aproximadamente R$ 110 mil.

O advogado Bruno Borragini, responsável pela defesa do presidente, rebateu as conclusões do inquérito.

“Não há anexo de causalidade, não há uma relação de vinculação nem direta nem indireta entre os saques do São Paulo e as entradas em espécie da conta do Júlio. Na iniciativa privada ele ganhava tanto em conta e também ao longo dessas funções que ele exerceu, ele recebeu boa parte em espécie. E ele guardou, quando ele assume a presidência do São Paulo, ele passa a suplementar a renda dele, como ele teve esse decréscimo, fazer esses depósitos em conta.”

“O Júlio, enquanto presidente, ele não tinha nem poder, e por isso que o São Paulo tem até um departamento específico, que é o de conformidade, de poder olhar de cima para baixo e falar, aqui está errado, aqui está certo. O sentimento do Júlio hoje é de apuração. Ele não está fazendo o juízo de valor, ele determinou que o departamento de compliance assim agisse para que fosse e que seja apurada a conduta de determinados diretores. Então, assim, ele não se sente nem bem nem mal. Ele só determinou, enquanto presidente, a apuração”afirmou.

Crise política e votação de impeachment

O cenário institucional do São Paulo se agravou nas últimas semanas. Em 23 de dezembro, conselheiros protocolaram um pedido com 57 assinaturas solicitando a convocação de uma reunião extraordinária para discutir o impeachment de Julio Casares.

A votação foi marcada para a próxima sexta-feira, às 18h30, no estádio do Morumbis. O requerimento partiu do grupo de oposição Salve o Tricolor Paulista, mas também contou com assinaturas de integrantes da situação.

A pressão sobre o presidente aumentou após reportagens revelarem a exploração irregular de um camarote do Morumbis, envolvendo dois diretores atualmente afastados. Em áudios divulgados, Mara Casares e Douglas Schwartzmann admitiram participação em um esquema de uso ilegal do espaço durante o show da cantora Shakira, em fevereiro de 2025.

Enquanto o caso ganhava repercussão pública, a Polícia Civil já mantinha investigações abertas em diferentes frentes, incluindo supostas irregularidades no departamento de futebol e a movimentação financeira das contas do clube e de Julio Casares.

Entre os pontos apurados estão o recebimento de R$ 1,5 milhão em depósitos em dinheiro nas contas do presidente e os 35 saques realizados pelo São Paulo entre 2021 e 2025, que somam R$ 11 milhões.


Fonte – Jogo de Hoje 360°


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